terça-feira, 3 de julho de 2018

Conta do tempo


Deus pede estrita conta de meu tempo.
 E eu vou do meu tempo, dar-lhe conta.
 Mas, como dar, sem tempo, tanta conta
 Eu, que gastei, sem conta, tanto tempo?
 Para dar minha conta feita a tempo
 O tempo me foi dado, e não fiz conta
 Não quis, sobrando tempo, fazer conta
 Hoje, quero acertar conta, e não há tempo.
 Oh, vós, que tendes tempo sem ter conta
 Não gasteis vosso tempo em passatempo.
 Cuidai, enquanto é tempo, em vossa conta!
 Pois, aqueles que, sem conta, gastam tempo
 Quando o tempo chegar, de prestar conta
 Chorarão, como eu, o não ter tempo...

 Frei António das Chagas, 'Antologia Poética'

quinta-feira, 28 de junho de 2018

Um anjo veio...


[...] Um anjo veio e deu vida
Ao peito de amores nu:
Minh'alma agora remida
Adora o anjo - que és tu!

 Casimiro de Abreu

sexta-feira, 8 de junho de 2018

A musica...


A música p'ra mim tem seduções de oceano!
 Quantas vezes procuro navegar
 Sobre um dorso brumoso, a vela a todo o pano
 Minha pálida estrela a demandar!
 O peito saliente, os pulmões distendidos
 Como o rijo velame d'um navio
 Intento desvendar os reinos escondidos
 Sob o manto da noite escuro e frio;
 Sinto vibrar em mim todas as comoções
 D'um navio que sulca o vasto mar;
 Chuvas temporais, ciclones, convulsões
 Conseguem a minh'alma acalentar.
 — Mas quando reina a paz, quando a bonança impera
 Que desespero horrivel me exaspera

 Charles Baudelaire, in "As Flores do Mal"

terça-feira, 22 de maio de 2018

Leonard Cohen Ten New Songs - Full Album

Primavera...


Ah! quem nos dera que isto, como outrora
Inda nos comovesse!
Ah! quem nos dera
Que inda juntos pudéssemos agora
Ver o desabrochar da primavera!
 Saíamos com os pássaros e a aurora.
 E, no chão, sobre os troncos cheios de hera
Sentavas-te sorrindo, de hora em hora:
 "Beijemo-nos! amemo-nos! espera!"
 E esse corpo de rosa recendia,
 E aos meus beijos de fogo palpitava,
 Alquebrado de amor e de cansaço.
 A alma da terra gorjeava e ria...
 Nascia a primavera...
 E eu te levava, Primavera de carne, pelo braço!

 Olavo Bilac, in "Poesias"

quinta-feira, 17 de maio de 2018

Gato negro...


"Eu sou um gato, negro como cor da noite.
 Livre e misterioso como os astros no firmamento.
 Tens medo do mistério?
 Dele crias lendas, medos e fantasias?
 És supersticioso e preconceituoso?
 Não me uses nas tuas inseguranças.
Eu sou um gato preto
Eu sou uma vida,
eu sou mais uma beleza da Criação
 assim como tu, e tudo
que existe neste imenso Cosmos."

 Amara Antara

sábado, 28 de abril de 2018

Gosto da minha solidão


Gosto da minha solidão
do meu canto do meu quarto do meu silêncio ...
Não sinto nenhum incômodo em ficar sozinha .
 Pelo contrário ...
 Vou delicadamente me cuidando e me regando por dentro .
 O momento em que me sinto mais feliz :
 É quando fecho os olhos
mergulho profundo esqueço toda a dor
 E me acaricio em alento .

 Paula Monteiro

segunda-feira, 23 de abril de 2018

Nunca existiu uma pessoa como você...


Nunca existiu uma pessoa como você antes
 não existe ninguém neste mundo
 como você agora e nem nunca existirá.
Veja só o respeito que a vida tem por você.
Você é uma obra de arte — impossível de repetir
 incomparável, absolutamente única.

 Osho

sexta-feira, 13 de abril de 2018

Os ninguens,os donos de nada.


"Os ninguéns: os filhos de ninguém, os dono de nada.
 Os ninguéns: os nenhuns, correndo soltos,
 morrendo a vida, fodidos e mal pagos:
Que não são embora sejam.
 Que não falam idiomas, falam dialectos.
 Que não praticam religiões, praticam superstições.
Que não fazem arte, fazem artesanato.
Que não são seres humanos, são recursos humanos.
 Que não tem cultura, têm folclore.
Que não têm cara, têm braços.
 Que não têm nome, têm número.
 Que não aparecem na história universal
 aparecem nas páginas policiais da imprensa local.
Os ninguéns, que custam menos do que a bala que os mata.” . .

 Eduardo Galeano, em “O Livro dos Abraços”


domingo, 8 de abril de 2018

Maria Dilar _ Fronteira de Coragem

.
t
Portugal visto de cima
 é um Fernando Pessoa... distante, profundo
 e intrigante, cheio de reentrâncias e Saramagos...

 Moog Laet

sábado, 7 de abril de 2018

Se alguém lhe disser que sonha...


Vestiu-se para um baile que não há.
 Sentou-se com suas últimas jóias.
 E olha para o lado, imóvel.
 Está vendo os salões que se acabaram
 embala-se em valsas que não dançou
 levemente sorri para um homem.
 O homem que não existiu.
 Se alguém lhe disser que sonha
 levantará com desdém o arco das sobrancelhas
 Pois jamais se viveu com tanta plenitude.
 Mas para falar de sua vida
tem de abaixar as quase infantis pestanas
 e esperar que se apaguem duas infinitas lágrimas.

 Cecília Meireles, 'Poemas (1942-1959)'