domingo, 17 de maio de 2015

Sofro e Sonho....


"Não me indigno, porque a indignação é para os fortes
Não me resigno, porque a resignação é para os nobres;
Não me calo, porque o silêncio é para os grandes
 E eu não sou forte, nem nobre, nem grande
 Sofro e sonho.

 Queixo-me porque sou fraco e, porque sou artista
E entretenho-me a tecer musicais as minhas queixas
E a arranjar meus sonhos conforme me parece melhor
A minha ideia de os achar belos.
 Só lamento o não ser criança, para que pudesse crer nos meus sonhos.
" "Eu não sou pessimista, sou triste."

 Fernando Pessoa

sábado, 16 de maio de 2015

Liberdade!


— Liberdade, que estais no céu...
 Rezava o padre-nosso que sabia
 A pedir-te, humildemente
 O pio de cada dia.
 Mas a tua bondade omnipotente
 Nem me ouvia. —

 Liberdade, que estais na terra...
 E a minha voz crescia de emoção
 Mas um silêncio triste sepultava
 A fé que ressumava da oração


 Até que um dia, corajosamente
 Olhei noutro sentido, e pude, deslumbrado
 Saborear, enfim, o pão da minha fome
 Liberdade, que estais em mim
 Santificado seja o vosso nome.

 Miguel Torga,
foto- Manuel Barca                                                                                     

quinta-feira, 14 de maio de 2015

Lua Adversa


Tenho fases, como a lua.
 Fases de andar escondida, fases de vir para a rua...
 Perdição da minha vida!

 Tenho fases de ser tua, tenho outras de ser sozinha
Fases que vão e vêm, no secreto calendário
Que um astrólogo arbitrário inventou para meu uso
 E roda a melancolia seu interminável fuso!
 Não me encontro com ninguém (tenho fases como a lua...)
 No dia de alguém ser meu não é dia de eu ser tua
 E, quando chega esse dia, o outro desapareceu...

 Cecília Meireles
foto- Safa Pirshini

Um anjo vem ...



Um anjo vem todas as noites:
Senta-se ao pé de mim
E passa sobre meu coração a asa mansa
Como se fosse meu melhor amigo.
 Esse fantasma que chega e me abraça
(asas cobrindo a ferida do flanco)
É todo o amor que resta entre ti e mim, e está comigo.

 Lya Luft

quarta-feira, 13 de maio de 2015

Permite...


Permite que eu volte
o meu rosto para um céu maior
que este mundo .
E aprenda a ser dócil no sonho
como as estrelas no seu rumo.

 Cecília Meireles

terça-feira, 12 de maio de 2015

Entre o luar e a folhagem

Entre o luar e a folhagem
Entre o sossego e o arvoredo
Entre o ser noite e haver aragem
Passa um segredo
Segue-o minha alma na passagem
Ténue lembrança ou saudade
Princípio ou fim do que não foi
Não tem lugar, não tem verdade
Atrai e dói
Segue-o meu ser em liberdade.
Vazio encanto ébrio de si
Tristeza ou alegria o traz?
O que sou dele a quem sorri?
Nada é nem faz
Só de segui-lo me perdi

Fernando Pessoa




domingo, 10 de maio de 2015

Ruas de Lisboa



Ruas da minha cidade
Veias que o meu sangue abraça
E põe cravos de ansiedade
Na lapela de quem passa.
 Ruas da minha cidade
Onde perco o coração.
Poema diz a verdade!
 Diz a verdade canção!
 Ruas da minha cidade
Amanhecendo a firmeza duma ponte
Entre a saudade e um Abril à portuguesa.
Ruas da minha cidade onde vingo as minhas asas.
 O meu nome é liberdade e moro em todas as casas.
 Ruas da minha cidade
Praças da minha alegria onde antes da claridade
Era noite todo o dia.
 Ruas da minha cidade
Onde o velho é sempre novo: as ruas não têm idade
Porque são todas do povo.
 Ruas da minha cidade becos de ganga puída.
 Oficinas da verdade dos operários desta vida
. Ruas da minha cidade janelas do meu olhar
Onde os pardais da amizade à tarde vêm poisar.
 Ruas da minha cidade rasgadas por minha mão.
 A gente passa à vontade quando pisa o nosso chão.
 Ruas da minha cidade
 Aonde eu quero morrer
Com cravos de eternidade
 Dos meus olhos a nascer. *

Joaquim Pessoa

sábado, 9 de maio de 2015

Recebe este beijo !




Recebe este beijo
 E te deixando a partir de agora
 Então, deixa-me  contar:
 Tu não estás errado, tu que consideras
 Que meus dias foram um sonho;
 Mesmo que a Esperança tenha sumido
 Em uma noite, ou em um dia,
 Numa visão ou em nada mais
 É, portanto, o que menos se perdeu?
 Tudo o que vemos ou transparecemos
 É nada além de um sonho dentro de um sonho

. Edgar Allan Poe

sexta-feira, 8 de maio de 2015

Esperança


Tantas formas revestes, e nenhuma
 Me satisfaz!
 Vens às vezes no amor
E quase te acredito.
 Mas todo o amor é um grito
 Desesperado
 Que apenas ouve o eco...
 Peco por absurdo humano:
 Quero não sei que cálice profano
 Cheio de um vinho herético
 E sagrado.

 Miguel Torga




quinta-feira, 7 de maio de 2015

Noite fria na janela...


Noite fria,na janela bate o vento
O  silêncio da noite actua dentro de mim
Lanço ao vento um desejo
Fecho os olhos e faço um pedido
Que o meu AMOR nunca se esqueça de mim
Seus olhos são como um ponto
Para mim,um ponto sem fim
O teu olhar
Me diz tantas coisas loucas
Que quando chega perto
A minha alma não me deixa
Mentir,pensar em você
Mas faz viva,o som da tua voz
É o meu vicio me destrói
E arrasa comigo,pois eu não ligo
Porque o amor anda comigo
E em seus olhos eu vejo o universo
Que me desfaz em versos
Somente para ti...

 Neici Gambôa
foto- Todd Wall

quarta-feira, 6 de maio de 2015

Em todas as ruas te encontro


Em todas as ruas te encontro em todas as ruas te perco
Conheço tão bem o teu corpo sonhei tanto a tua figura
Que é de olhos fechados que eu ando a limitar a tua altura
E bebo a água e sorvo o ar que te atravessou a cintura
Tanto tão perto tão real que o meu corpo se transfigura
E toca o seu próprio elemento num corpo que já não é seu
Num rio que desapareceu onde um braço teu me procura
Em todas as ruas te encontro em todas as ruas te perco

 Mário Cesariny, in "Pena Capital"

terça-feira, 5 de maio de 2015

Refúgio...


 Só estou, e só fico
 A solidão é meu refúgio
Meu instante de meditação,
 De escutar meu coração
 No silêncio mudo
 Transcendo o mundo
 Em absoluta união
 Numa contemplação
 Que foge a qualquer compreensão.

 Inoema Nunes Jahnke
foto-Spencer Tan 

segunda-feira, 4 de maio de 2015

Máscara...


Para quem sabe amá-lo, o mundo de sua máscara de infinito
Torna-se pequeno como uma canção,como um beijo do eterno
 Existo...que perpétua surpresa é a vida!
Lemos mal o mundo e logo dizemos que o mundo nos engana.
Quantas barricadas o pensamento do homem ergue contra si próprio.
Se lanço minha própria sombra no caminho
É porque há uma lâmpada em mim que não se acendeu...

 Tagore

sexta-feira, 1 de maio de 2015

A Forma Justa


Sei que seria possível construir o mundo justo
 As cidades poderiam ser claras e lavada
 Pelo canto dos espaços e das fontes
 O céu o mar e a terra estão prontos
 A saciar a nossa fome do terrestre
 A terra onde estamos — se ninguém atraiçoasse — proporia
 Cada dia a cada um a liberdade e o reino
 Na concha na flor no homem e no fruto
 Se nada adoecer a própria forma é justa
 E no todo se integra como palavra em verso
 Sei que seria possível construir a forma justa
 De uma cidade humana que fosse
 Fiel à perfeição do universo


 Por isso recomeço sem cessar a partir da página em branco
 E este é meu ofício de poeta para a reconstrução do mundo

 Sophia de Mello Breyner Andresen,
foto Adrian Donoghue