domingo, 2 de outubro de 2016

É isto o amor


 Em quem pensar, agora, senão em ti?
Tu, que me esvaziaste de coisas incertas, e trouxeste a manhã da minha noite.
É verdade que te podia dizer:
«Como é mais fácil deixar que as coisas não mudem
sermos o que sempre fomos, mudarmos apenas dentro de nós próprios?
 Mas ensinaste-me a sermos dois; e a ser contigo aquilo que sou
até sermos um apenas no amor que nos une, contra a solidão que nos divide.
Mas é isto o amor: ver-te mesmo quando te não vejo
ouvir a tua voz que abre as fontes de todos os rios
mesmo esse que mal corria quando por ele passámos
subindo a margem em que descobri o sentido de irmos contra o tempo
para ganhar o tempo que o tempo nos rouba.
Como gosto, meu amor, de chegar antes de ti
para te ver chegar: com a surpresa dos teus cabelos
e o teu rosto de água fresca que eu bebo, com esta sede que não passa.
Tu: a primavera luminosa da minha expectativa
a mais certa certeza de que gosto de ti, como gostas de mim
até ao fim do mundo que me deste.

 Nuno Júdice, in 'Pedro, Lembrando Inês'

segunda-feira, 26 de setembro de 2016

Perdoa-me folha seca !


Perdoa-me, folha seca, não posso cuidar de ti.
Vim para amar neste mundo, e até do amor me perdi.
 De que serviu tecer flores pelas areias do chão
 se havia gente dormindo sobre o próprio coração?
 E não pude levantá-la!
 Choro pelo que não fiz.
 E pela minha fraqueza é que sou triste e infeliz.
Perdoa-me, folha seca!
Meus olhos sem força estão velando
 e rogando aqueles que não se levantarão...
 Tu és folha de outono voante pelo jardim.
Deixo-te a minha saudade - a melhor parte de mim.
E vou por este caminho, certa de que tudo é vão.
 Que tudo é menos que o vento, menos que as folhas do chão...

 Cecília Meireles

sexta-feira, 16 de setembro de 2016

A Voz que Nos Rasgou por Dentro.


 De onde vem - a voz que nos rasgou por dentro
que trouxe consigo a chuva negra do outono
que fugiu por entre névoas
e campos devorados pela erva?
 Esteve aqui — aqui dentro de nós
como se sempre aqui tivesse estado
e não a ouvimos, como se não nos falasse
desde sempre, aqui, dentro de nós.
E agora que a queremos ouvir
como se a tivéssemos reconhecido outrora
 onde está? A voz que dança de noite, no inverno
 sem luz nem eco, enquanto segura pela mão
o fio obscuro do horizonte.
 Diz: "Não chores o que te espera
 nem desças já pela margem do rio derradeiro.
 Respira, numa breve inspiração
 o cheiro da resina, nos bosques
 e o sopro húmido dos versos
 Como se a ouvíssemos.

 Nuno Júdice

sexta-feira, 9 de setembro de 2016

As pombas

 Vai-se a primeira pomba despertada ...
 Vai-se outra mais ... mais outra ...
 enfim dezenas
 De pombas vão-se dos pombais, apenas
 Raia sanguínea e fresca a madrugada ...
 E à tarde, quando a rígida nortada
Sopra, aos pombais de novo elas, serenas,
 Ruflando as asas, sacudindo as penas,
 Voltam todas em bando e em revoada...
 Também dos corações onde abotoam,
 Os sonhos, um por um, céleres voam,
Como voam as pombas dos pombais;
 No azul da adolescência as asas soltam,
 Fogem... Mas aos pombais as pombas voltam,
 E eles aos corações não voltam mais...

Raimundo Correia
imagem google

domingo, 4 de setembro de 2016

Timidez


Basta-me um pequeno gesto
 feito de longe e de leve
 para que venhas comigo
 e eu para sempre te leve…

 - mas só esse eu não farei.

Uma palavra caída das montanhas
 dos instantes desmancha todos os mares
 e une as terras mais distantes… -

palavra que não direi.

 Para que tu me adivinhes,
 entre os ventos taciturnos
, apago meus pensamentos
 ponho vestidos nocturnos

, - que amargamente inventei.

E, enquanto não me descobres
 os mundos vão navegando
 nos ares certos do tempo
, até não se sabe quando

… e um dia me acabarei.

 Cecília Meireles


sexta-feira, 2 de setembro de 2016

Enya - Only Time (Official Music Video)

Foto desbotada...


Se tu e eu, com o tempo
 nos tornarmos uma foto desbotada
 então tu não podes deixar que isso aconteça
 pega as cores da tua alma e com o marcador da tua mente
 dá cor a esta magia, pela vida
e mais uma vez, a esta emoção...

 De: "Lela zanutta", lelouch, a dama do lago

domingo, 21 de agosto de 2016

Partir...



(...) é preciso partir é preciso chegar Ah, como esta vida é urgente! ...
no entanto eu gostava mesmo era de partir
... e - até hoje - quando acaso embarco para alguma parte
 acomodo-me no meu lugar fecho os olhos
 e sonho: viajar, viajar mas para parte nenhuma
... viajar indefinidamente... como uma nave espacial
 perdida entre as estrêlas

Mário Quintana
Imagem-Le-Dernier



terça-feira, 9 de agosto de 2016

Retrato...


Eu não tinha este rosto de hoje
assim calmo, assim triste, assim magro
 nem estes olhos tão vazios, nem o lábio amargo.
 Eu não tinha estas mãos sem força, tão paradas
 e frias e mortas; eu não tinha
 este coração que nem se mostra.
 Eu não dei por esta mudança
 tão simples, tão certa, tão fácil
 Em que espelho ficou perdida a minha face?

 Cecília Meireles
imagem-google

quarta-feira, 3 de agosto de 2016

Tuas palavras...


Tuas palavras antigas
 Deixei-as todas, deixei-as
,Junto com as minhas cantigas
Desenhadas nas areias.

 Tantos sóis e tantas luas
 Brilharam sobre essas linhas
Das cantigas — que eram tuas
Das palavras — que eram minhas!

 O mar, de língua sonora
Sabe o presente e o passado
Canta o que é meu, vai-se embora:
Que o resto é pouco e apagado.

 Cecília Meireles