terça-feira, 4 de outubro de 2016
domingo, 2 de outubro de 2016
É isto o amor
Em quem pensar, agora, senão em ti?
Tu, que me esvaziaste de coisas incertas, e trouxeste a manhã da minha noite.
É verdade que te podia dizer:
«Como é mais fácil deixar que as coisas não mudem
sermos o que sempre fomos, mudarmos apenas dentro de nós próprios?
Mas ensinaste-me a sermos dois; e a ser contigo aquilo que sou
até sermos um apenas no amor que nos une, contra a solidão que nos divide.
Mas é isto o amor: ver-te mesmo quando te não vejo
ouvir a tua voz que abre as fontes de todos os rios
mesmo esse que mal corria quando por ele passámos
subindo a margem em que descobri o sentido de irmos contra o tempo
para ganhar o tempo que o tempo nos rouba.
Como gosto, meu amor, de chegar antes de ti
para te ver chegar: com a surpresa dos teus cabelos
e o teu rosto de água fresca que eu bebo, com esta sede que não passa.
Tu: a primavera luminosa da minha expectativa
a mais certa certeza de que gosto de ti, como gostas de mim
até ao fim do mundo que me deste.
Nuno Júdice, in 'Pedro, Lembrando Inês'
segunda-feira, 26 de setembro de 2016
Perdoa-me folha seca !
Perdoa-me, folha seca, não posso cuidar de ti.
Vim para amar neste mundo, e até do amor me perdi.
De que serviu tecer flores pelas areias do chão
se havia gente dormindo sobre o próprio coração?
E não pude levantá-la!
Choro pelo que não fiz.
E pela minha fraqueza é que sou triste e infeliz.
Perdoa-me, folha seca!
Meus olhos sem força estão velando
e rogando aqueles que não se levantarão...
Tu és folha de outono voante pelo jardim.
Deixo-te a minha saudade - a melhor parte de mim.
E vou por este caminho, certa de que tudo é vão.
Que tudo é menos que o vento, menos que as folhas do chão...
Cecília Meireles
sexta-feira, 16 de setembro de 2016
A Voz que Nos Rasgou por Dentro.
De onde vem - a voz que nos rasgou por dentro
que trouxe consigo a chuva negra do outono
que fugiu por entre névoas
e campos devorados pela erva?
Esteve aqui — aqui dentro de nós
como se sempre aqui tivesse estado
e não a ouvimos, como se não nos falasse
desde sempre, aqui, dentro de nós.
E agora que a queremos ouvir
como se a tivéssemos reconhecido outrora
onde está? A voz que dança de noite, no inverno
sem luz nem eco, enquanto segura pela mão
o fio obscuro do horizonte.
Diz: "Não chores o que te espera
nem desças já pela margem do rio derradeiro.
Respira, numa breve inspiração
o cheiro da resina, nos bosques
e o sopro húmido dos versos
Como se a ouvíssemos.
Nuno Júdice
sexta-feira, 9 de setembro de 2016
As pombas
Vai-se a primeira pomba despertada ...
Vai-se outra mais ... mais outra ...
enfim dezenas
De pombas vão-se dos pombais, apenas
Raia sanguínea e fresca a madrugada ...
E à tarde, quando a rígida nortada
Sopra, aos pombais de novo elas, serenas,
Ruflando as asas, sacudindo as penas,
Voltam todas em bando e em revoada...
Também dos corações onde abotoam,
Os sonhos, um por um, céleres voam,
Como voam as pombas dos pombais;
No azul da adolescência as asas soltam,
Fogem... Mas aos pombais as pombas voltam,
E eles aos corações não voltam mais...
Raimundo Correia
imagem google
Vai-se outra mais ... mais outra ...
enfim dezenas
De pombas vão-se dos pombais, apenas
Raia sanguínea e fresca a madrugada ...
E à tarde, quando a rígida nortada
Sopra, aos pombais de novo elas, serenas,
Ruflando as asas, sacudindo as penas,
Voltam todas em bando e em revoada...
Também dos corações onde abotoam,
Os sonhos, um por um, céleres voam,
Como voam as pombas dos pombais;
No azul da adolescência as asas soltam,
Fogem... Mas aos pombais as pombas voltam,
E eles aos corações não voltam mais...
Raimundo Correia
imagem google
domingo, 4 de setembro de 2016
Timidez
Basta-me um pequeno gesto
feito de longe e de leve
para que venhas comigo
e eu para sempre te leve…
- mas só esse eu não farei.
Uma palavra caída das montanhas
dos instantes desmancha todos os mares
e une as terras mais distantes… -
e une as terras mais distantes… -
palavra que não direi.
Para que tu me adivinhes,
entre os ventos taciturnos
, apago meus pensamentos
ponho vestidos nocturnos
, - que amargamente inventei.
E, enquanto não me descobres
os mundos vão navegando
nos ares certos do tempo
, até não se sabe quando
… e um dia me acabarei.
Cecília Meireles
sexta-feira, 2 de setembro de 2016
domingo, 21 de agosto de 2016
Partir...
(...) é preciso partir é preciso chegar Ah, como esta vida é urgente! ...
no entanto eu gostava mesmo era de partir
... e - até hoje - quando acaso embarco para alguma parte
acomodo-me no meu lugar fecho os olhos
e sonho: viajar, viajar mas para parte nenhuma
... viajar indefinidamente... como uma nave espacial
perdida entre as estrêlas
Mário Quintana
Imagem-Le-Dernier
sexta-feira, 19 de agosto de 2016
terça-feira, 9 de agosto de 2016
Retrato...
Eu não tinha este rosto de hoje
assim calmo, assim triste, assim magro
nem estes olhos tão vazios, nem o lábio amargo.
Eu não tinha estas mãos sem força, tão paradas
e frias e mortas; eu não tinha
este coração que nem se mostra.
Eu não dei por esta mudança
tão simples, tão certa, tão fácil
Em que espelho ficou perdida a minha face?
Cecília Meireles
imagem-google
sexta-feira, 5 de agosto de 2016
quarta-feira, 3 de agosto de 2016
Tuas palavras...
Tuas palavras antigas
Deixei-as todas, deixei-as
,Junto com as minhas cantigas
Desenhadas nas areias.
Tantos sóis e tantas luas
Brilharam sobre essas linhas
Das cantigas — que eram tuas
Das palavras — que eram minhas!
O mar, de língua sonora
Sabe o presente e o passado
Canta o que é meu, vai-se embora:
Que o resto é pouco e apagado.
Cecília Meireles
terça-feira, 2 de agosto de 2016
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