quinta-feira, 18 de abril de 2019

A lenda da cotovia ...


Lenda da Cotovia
 Uma linda cotovia
 Libertina e mariola
 Conta a lenda, certo dia
 Foi presa numa gaiola.
 E a linda cotovia
 Costumada a vadiar
 Cantou de noite e de dia
 Pois não sabia chorar.
 E à voz da passarada
 Que, de vago, ao longe ouvia
 Respondia em desgarrada
 A todos entristecia.
 À quarta noite passada
 Já risonho o sol nascia
 Morreu de dor e cansada
 Essa linda cotovia.
 Onde ela foi enterrada
 Um cravo negro vingou
 Depois disso a passarada
 Nunca mais ali cantou.
 Diz a lenda, ao terminar
 Que certas noites se ouvia
 Ao longe, triste, a cantar
 Uma linda cotovia.

 Manuel de Andrade

segunda-feira, 1 de abril de 2019

Noite..


 Ó noite onde as estrelas mentem luz
 ó noite, única coisa do tamanho do universo
 torna-me, corpo e alma, parte do teu corpo
que eu me perca em ser mera treva
 e me torne noite também
 sem sonhos que sejam estrelas em mim
 nem sol esperado que ilumine do futuro.

 Fernando Pessoa

domingo, 17 de março de 2019

Somos matéria de sonhos.


Somos matéria de sonhos
 Pó de estrelas que ficou na alma
 Quando a respiração da vida
 Nos soprou dentro da essência do universo...

sexta-feira, 1 de março de 2019

Fado da saudade

Desespero


Não eram meus os olhos que te olharam
 Nem este corpo exausto que despi
 Nem os lábios sedentos que poisaram
 No mais secreto do que existe em ti.
 Não eram meus os dedos que tocaram
 Tua falsa beleza, em que não vi
 Mais que os vícios que um dia me geraram
 E me perseguem desde que nasci.
 Não fui eu que te quis.
 E não sou eu
 Que hoje te aspiro e embalo e gemo e canto,
 Possesso desta raiva que me deu
 A grande solidão que de ti espero.
 A voz com que te chamo é o desencanto
 E o esperma que te dou, o desespero.

 Ary dos Santos, in 'Liturgia do Sangue'

domingo, 17 de fevereiro de 2019

Mensagem de BUDA ...




" Buda disse;
 Domine suas palavras, domine seus pensamentos, não magoe ninguém
 Siga fielmente essas orientações e avance no caminho dos sábios

 A maior vitória que se conquista é sobre si mesmo.
 Para isso, é preciso controlar a própria mente.
Você deve controlar seus pensamentos
 eles não devem ir e vir, como ondas no mar.
 Talvez acredite que é incapaz de fazer isso.
Mas há uma resposta para isso:
 você não pode proibir uma ave de voar sobre você
 mas certamente pode evitar que ela faça um ninho na sua cabeça.


sexta-feira, 15 de fevereiro de 2019


Amor é fogo que arde sem se ver;
 É ferida que dói, e não se sente;
É um contentamento descontente;
É dor que desatina sem doer.
 É um não querer mais que bem querer;
É um andar solitário entre a gente
 É nunca contentar-se de contente;
É um cuidar que se ganha em se perder.
 É querer estar preso por vontade;
É servir a quem vence, o vencedor;
É ter com quem nos mata, lealdade.
 Mas como causar pode seu favor
Nos corações humanos amizade
Se tão contrário a si é o mesmo Amor?

 Luís de Camões

domingo, 10 de fevereiro de 2019

O suporte da musica


O suporte da música pode ser a relação
 entre um homem e uma mulher
 a pauta dos seus gestos tocando-se
 ou dos seus olhares encontrando-se
 ou das suas vogais adivinhando-se abertas e recíprocas
 ou dos seus obscuros sinais de entendimento
 crescendo como trepadeiras entre eles.
 o suporte da música pode ser uma apetência
 dos seus ouvidos e do olfacto
 de tudo o que se ramifica entre os timbres
 os perfumes, mas é também um ritmo interior
 uma parcela do cosmos, e eles sabem-no
 perpassando por uns frágeis momentos
 concentrado num ponto minúsculo
 intensamente luminoso, que a música, desvendando-se
 desdobra, entre conhecimento e cúmplice harmonia.

 Vasco Graça Moura

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2019

Se me esqueceres


Se Me Esqueceres
Quero que saibas uma coisa.
 Sabes como é: se olho a lua de cristal,
 o ramo vermelho do lento outono à minha janela,
 se toco junto do lume a impalpável cinza
 ou o enrugado corpo da lenha, tudo me leva para ti,
 como se tudo o que existe, aromas, luz, metais,
 fosse pequenos barcos que navegam
 até às tuas ilhas que me esperam.
 Mas agora, se pouco a pouco
me deixas de amar deixarei de te amar pouco a pouco.
 Se de súbito me esqueceres não me procures
 porque já te terei esquecido.
 Se julgas que é vasto e louco
 o vento de bandeiras que passa pela minha vida
 e te resolves a deixar-me na margem do coração
em que tenho raízes, pensa que nesse dia, a essa hora
 levantarei os braços e as minhas raízes sairão em busca de outra terra.
 Porém se todos os dias, a toda a hora,
 te sentes destinada a mim com doçura implacável,
 se todos os dias uma flor uma flor te sobe aos lábios à minha procura
, ai meu amor, ai minha amada, em mim todo esse fogo se repete
, em mim nada se apaga nem se esquece,
 o meu amor alimenta-se do teu amor, e enquanto viveres
 estará nos teus braços sem sair dos meus

. Pablo Neruda, in "Poemas de Amor de Pablo Neruda"

segunda-feira, 21 de janeiro de 2019

Árvores solitárias


.. .Solitárias, as árvores,exaram terra
 e sol silenciosamente
 Não pensam, não suspiram, não se queixam.
 Estendem os braços como se implorassem
com o vento soltam ais como se suspirassem
 e gemem, mas a queixa não é sua.
 Sós, sempre sós.
Nas planícies, nos montes, nas florestas
 a crescer e a florir sem consciência
 Virtude vegetal viver a sós
 e entretanto dar flores.

 António Gedeão

quinta-feira, 3 de janeiro de 2019

Se depois de eu morrer...




Se, depois de eu morrer, quiserem escrever a minha biografia
 Não há nada mais simples. Tem só duas datas ---
 a da minha nascença e a da minha morte.
Entre uma e outra todos os dias são meus.
 Sou fácil de definir. Vi como um danado.
Amei as coisas sem sentimentalidade nenhuma.
Nunca tive um desejo que não pudesse realizar, porque nunca ceguei.
 Mesmo ouvir nunca foi para mim senão um acompanhamento de ver.
 Compreendi que as coisas são reais e todas diferentes umas das outras;
 Compreendi isto com os olhos, nunca com o pensamento
. Compreender isto com o pensamento seria achá-las todas iguais.
Um dia deu-me o sono como a qualquer criança.
 Fechei os olhos e dormi.
Além disso fui o único poeta da Natureza.

 Alberto Caeiro
foto Maria Dilar