quinta-feira, 24 de novembro de 2016

O Anel de Vidro


Aquele pequenino anel que tu me deste
 — Ai de mim —
era vidro e logo se quebrou
 Assim também o eterno amor que prometeste
 Eterno! era bem pouco e cedo se acabou.
 Frágil penhor que foi do amor que me tiveste
Símbolo da afeição que o tempo aniquilou
 Aquele pequenino anel que tu me deste
 — Ai de mim — era vidro e logo se quebrou
 Não me turbou, porém, o despeito que investe
 Gritando maldições contra aquilo que amou.
 De ti conservo no peito a saudade celeste
 Como também guardei o pó que me ficou
 Daquele pequenino anel que tu me deste

Manuel Bandeira

quarta-feira, 16 de novembro de 2016

Foi par ti...


Foi para ti que desfolhei a chuva
para ti soltei o perfume da terra toquei
no nada e para ti foi tudo
Para ti criei todas as palavras
e todas me faltaram no minuto
em que talhei o sabor do sempre

 Para ti dei voz às minhas mãos
abri os gomos do tempo assaltei o mundo
e pensei que tudo estava em nós
nesse doce engano de tudo sermos donos

sem nada termos simplesmente porque era de noite
e não dormíamos..  eu descia em teu peito para me procurar
e antes que a escuridão nos cingisse a cintura
ficávamos nos olhos vivendo de um só
amando de uma só vida


 Mia Couto 

domingo, 13 de novembro de 2016

Além da Lenda...


Sendo Lenda
 posso brincar na sua alegria
 ser parte da sua emoção
 e caminhar, tranquila, pela sua ilusão...
Sendo Lenda, posso escrever
meu nome em sua vida
 e me instalar no aconchego do seu coração
 como uma sensação chegando pelo perfume do ar...
 Sendo Lenda
posso ser parte de você
 sem você perceber...

Débora Bottcher

domingo, 6 de novembro de 2016

O som do Silencio

Neurastenia


Sinto hoje a alma cheia de tristeza!
 Um sino dobra em mim Ave-Maria!
 Lá fora, a chuva, brancas mãos esguias,
 Faz na vidraça rendas de Veneza ...
 O vento desgrenhado chora e reza
 Por alma dos que estão nas agonias!
 E flocos de neve, aves brancas, frias
 Batem as asas pela Natureza

 ... Chuva ... tenho tristeza!

Mas porquê?! Vento ... tenho saudades!
Mas de quê?! Ó neve que destino triste o nosso!
 Ó chuva! Ó vento! Ó neve! Que tortura!
 Gritem ao mundo inteiro esta amargura
 Digam isto que sinto que eu não posso!! ...

 Florbela Espanca,

terça-feira, 1 de novembro de 2016

Perdi meus fantásticos castelos


Perdi meus fantásticos castelos
 Como névoa distante que se esfuma...
 Quis vencer, quis lutar, quis defendê-los:
 Quebrei as minhas lanças uma a uma!
 Perdi minhas galeras entre os gelos
 Que se afundaram sobre um mar de bruma... -
Tantos escolhos! Quem podia vê-los?
– Deitei-me ao mar e não salvei nenhuma!
 Perdi a minha taça, o meu anel,
 A minha cota de aço, o meu corcel,
 Perdi meu elmo de ouro e pedrarias...
 Sobem-me aos lábios súplicas estranhas...
 Sobre o meu coração pesam montanhas...
 Olho assombrada as minhas mãos vazias...

 Florbela Espanca,

sexta-feira, 28 de outubro de 2016

ESTRELA...


Que a Tua estrela nos encontre disponíveis
 para a viagem mesmo sem que percebamos tudo
 Que o seu brilho nos torne pacientes
Com as coisas não resolvidas do nosso coração
E nos ajude a amar as difíceis questões
 Que por vezes a noite, por vezes o dia
Segredam pelo tempo fora
 Que a tua estrela nos faça reconhecer
 Que nunca é tarde Para que se tornem
 de novo ágeis e sonhadores
 Os nossos passos cansados
 Pois nós próprios nos tornamos em estrelas
 Quando arriscamos perpetuar
 A Tua luz multiplicada

 José Tolentino Mendonça

domingo, 23 de outubro de 2016

Lição de vida...


Um velho cherokee dava lições de vida aos seus netos.
 Disse-lhes: “Está se travando uma luta dentro de mim.
 Luta terrível, entre dois lobos.
 Um é o medo, a cólera, a inveja, a tristeza, o remorso,
 a arrogância a auto-piedade, a culpa, o ressentimento,
 a inferioridade e a mentira.

O Outro é a paz, a esperança, o amor, a alegria,
 a delicadeza, a benevolência, a amizade,
 a empatia, a generosidade, a verdade, a compaixão e a fé.

A mesma luta está se travando dentro de vocês e de todas as outras pessoas…
” As crianças puseram-se a refletir sobre o assunto e uma delas perguntou ao avô: ”
 Qual dos lobos vencerá?”
 O ancião respondeu: ” Aquele que for alimentado…”

Índios Cherokee

segunda-feira, 17 de outubro de 2016

Até amanhã.


Aqui estão as mãos.
São os mais belos sinais da terra.

Os anjos nascem aqui: frescos, matinais
 quase de orvalho, de coração alegre e povoado.
Ponho nelas a minha boca, respiro o sangue
o seu rumor branco, aqueço-as por dentro
 abandonadas nas minhas, as pequenas mãos do mundo.
 Alguns pensam que são as mãos de Deus

Eu sei que são as mãos de um homem
 trémulas barcaças onde a água, a tristeza
 e as quatro estações penetram, indiferentemente.
 Não lhes toquem: são amor e bondade.
 Mais ainda: cheiram a madressilva.
 São o primeiro homem, a primeira mulher.
 E amanhece.

 Eugénio de Andrade, in "Até Amanhã"

 Artista, Corry Kamille

quinta-feira, 13 de outubro de 2016

Eu sou a terra...



Eu sou a terra, eu sou a vida.
 Do meu barro primeiro veio o homem.
 De mim veio a mulher e veio o amor
. Veio a árvore, veio a fonte.
Vem o fruto e vem a flor.

 Eu sou a fonte original de toda vida.
 Sou o chão que se prende à tua casa.
Sou a telha da coberta de teu lar.
 A mina constante de teu poço.
Sou a espiga generosa de teu gado
 e certeza tranquila ao teu esforço.

 Sou a razão de tua vida.
De mim vieste pela mão do Criador
 e a mim tu voltarás no fim da lida.
 Só em mim acharás descanso e Paz.
 Eu sou a grande Mãe Universal.
 Tua filha, tua noiva e desposada.
A mulher e o ventre que fecundas.
Sou a gleba, a gestação, eu sou o amor.


Cora Coralina

domingo, 2 de outubro de 2016

É isto o amor


 Em quem pensar, agora, senão em ti?
Tu, que me esvaziaste de coisas incertas, e trouxeste a manhã da minha noite.
É verdade que te podia dizer:
«Como é mais fácil deixar que as coisas não mudem
sermos o que sempre fomos, mudarmos apenas dentro de nós próprios?
 Mas ensinaste-me a sermos dois; e a ser contigo aquilo que sou
até sermos um apenas no amor que nos une, contra a solidão que nos divide.
Mas é isto o amor: ver-te mesmo quando te não vejo
ouvir a tua voz que abre as fontes de todos os rios
mesmo esse que mal corria quando por ele passámos
subindo a margem em que descobri o sentido de irmos contra o tempo
para ganhar o tempo que o tempo nos rouba.
Como gosto, meu amor, de chegar antes de ti
para te ver chegar: com a surpresa dos teus cabelos
e o teu rosto de água fresca que eu bebo, com esta sede que não passa.
Tu: a primavera luminosa da minha expectativa
a mais certa certeza de que gosto de ti, como gostas de mim
até ao fim do mundo que me deste.

 Nuno Júdice, in 'Pedro, Lembrando Inês'