sábado, 26 de novembro de 2016
quinta-feira, 24 de novembro de 2016
O Anel de Vidro
Aquele pequenino anel que tu me deste
— Ai de mim —
era vidro e logo se quebrou
Assim também o eterno amor que prometeste
Eterno! era bem pouco e cedo se acabou.
Frágil penhor que foi do amor que me tiveste
Símbolo da afeição que o tempo aniquilou
Aquele pequenino anel que tu me deste
— Ai de mim — era vidro e logo se quebrou
Não me turbou, porém, o despeito que investe
Gritando maldições contra aquilo que amou.
De ti conservo no peito a saudade celeste
Como também guardei o pó que me ficou
Daquele pequenino anel que tu me deste
Manuel Bandeira
quarta-feira, 16 de novembro de 2016
Foi par ti...
Foi para ti que desfolhei a chuva
para ti soltei o perfume da terra toquei
no nada e para ti foi tudo
Para ti criei todas as palavras
e todas me faltaram no minuto
em que talhei o sabor do sempre
Para ti dei voz às minhas mãos
abri os gomos do tempo assaltei o mundo
e pensei que tudo estava em nós
nesse doce engano de tudo sermos donos
sem nada termos simplesmente porque era de noite
e não dormíamos.. eu descia em teu peito para me procurar
e antes que a escuridão nos cingisse a cintura
ficávamos nos olhos vivendo de um só
amando de uma só vida
Mia Couto
domingo, 13 de novembro de 2016
Além da Lenda...
Sendo Lenda
posso brincar na sua alegria
ser parte da sua emoção
e caminhar, tranquila, pela sua ilusão...
Sendo Lenda, posso escrever
meu nome em sua vida
e me instalar no aconchego do seu coração
como uma sensação chegando pelo perfume do ar...
Sendo Lenda
posso ser parte de você
sem você perceber...
Débora Bottcher
domingo, 6 de novembro de 2016
Neurastenia
Sinto hoje a alma cheia de tristeza!
Um sino dobra em mim Ave-Maria!
Lá fora, a chuva, brancas mãos esguias,
Faz na vidraça rendas de Veneza ...
O vento desgrenhado chora e reza
Por alma dos que estão nas agonias!
E flocos de neve, aves brancas, frias
Batem as asas pela Natureza
... Chuva ... tenho tristeza!
Mas porquê?! Vento ... tenho saudades!
Mas de quê?! Ó neve que destino triste o nosso!
Ó chuva! Ó vento! Ó neve! Que tortura!
Gritem ao mundo inteiro esta amargura
Digam isto que sinto que eu não posso!! ...
Florbela Espanca,
quinta-feira, 3 de novembro de 2016
terça-feira, 1 de novembro de 2016
Perdi meus fantásticos castelos
Perdi meus fantásticos castelos
Como névoa distante que se esfuma...
Quis vencer, quis lutar, quis defendê-los:
Quebrei as minhas lanças uma a uma!
Perdi minhas galeras entre os gelos
Que se afundaram sobre um mar de bruma... -
Tantos escolhos! Quem podia vê-los?
– Deitei-me ao mar e não salvei nenhuma!
Perdi a minha taça, o meu anel,
A minha cota de aço, o meu corcel,
Perdi meu elmo de ouro e pedrarias...
Sobem-me aos lábios súplicas estranhas...
Sobre o meu coração pesam montanhas...
Olho assombrada as minhas mãos vazias...
Florbela Espanca,
sexta-feira, 28 de outubro de 2016
ESTRELA...
Que a Tua estrela nos encontre disponíveis
para a viagem mesmo sem que percebamos tudo
Que o seu brilho nos torne pacientes
Com as coisas não resolvidas do nosso coração
E nos ajude a amar as difíceis questões
Que por vezes a noite, por vezes o dia
Segredam pelo tempo fora
Que a tua estrela nos faça reconhecer
Que nunca é tarde Para que se tornem
de novo ágeis e sonhadores
Os nossos passos cansados
Pois nós próprios nos tornamos em estrelas
Quando arriscamos perpetuar
A Tua luz multiplicada
José Tolentino Mendonça
domingo, 23 de outubro de 2016
Lição de vida...
Um velho cherokee dava lições de vida aos seus netos.
Disse-lhes: “Está se travando uma luta dentro de mim.
Luta terrível, entre dois lobos.
Um é o medo, a cólera, a inveja, a tristeza, o remorso,
a arrogância a auto-piedade, a culpa, o ressentimento,
a inferioridade e a mentira.
O Outro é a paz, a esperança, o amor, a alegria,
a delicadeza, a benevolência, a amizade,
a empatia, a generosidade, a verdade, a compaixão e a fé.
A mesma luta está se travando dentro de vocês e de todas as outras pessoas…
” As crianças puseram-se a refletir sobre o assunto e uma delas perguntou ao avô: ”
Qual dos lobos vencerá?”
O ancião respondeu: ” Aquele que for alimentado…”
Índios Cherokee
segunda-feira, 17 de outubro de 2016
Até amanhã.
Aqui estão as mãos.
São os mais belos sinais da terra.
Os anjos nascem aqui: frescos, matinais
quase de orvalho, de coração alegre e povoado.
Ponho nelas a minha boca, respiro o sangue
o seu rumor branco, aqueço-as por dentro
abandonadas nas minhas, as pequenas mãos do mundo.
Alguns pensam que são as mãos de Deus
Eu sei que são as mãos de um homem
trémulas barcaças onde a água, a tristeza
e as quatro estações penetram, indiferentemente.
Não lhes toquem: são amor e bondade.
Mais ainda: cheiram a madressilva.
São o primeiro homem, a primeira mulher.
E amanhece.
Eugénio de Andrade, in "Até Amanhã"
Artista, Corry Kamille
quinta-feira, 13 de outubro de 2016
Eu sou a terra...
Eu sou a terra, eu sou a vida.
Do meu barro primeiro veio o homem.
De mim veio a mulher e veio o amor
. Veio a árvore, veio a fonte.
Vem o fruto e vem a flor.
Eu sou a fonte original de toda vida.
Sou o chão que se prende à tua casa.
Sou a telha da coberta de teu lar.
A mina constante de teu poço.
Sou a espiga generosa de teu gado
e certeza tranquila ao teu esforço.
Sou a razão de tua vida.
De mim vieste pela mão do Criador
e a mim tu voltarás no fim da lida.
Só em mim acharás descanso e Paz.
Eu sou a grande Mãe Universal.
Tua filha, tua noiva e desposada.
A mulher e o ventre que fecundas.
Sou a gleba, a gestação, eu sou o amor.
Cora Coralina
terça-feira, 4 de outubro de 2016
domingo, 2 de outubro de 2016
É isto o amor
Em quem pensar, agora, senão em ti?
Tu, que me esvaziaste de coisas incertas, e trouxeste a manhã da minha noite.
É verdade que te podia dizer:
«Como é mais fácil deixar que as coisas não mudem
sermos o que sempre fomos, mudarmos apenas dentro de nós próprios?
Mas ensinaste-me a sermos dois; e a ser contigo aquilo que sou
até sermos um apenas no amor que nos une, contra a solidão que nos divide.
Mas é isto o amor: ver-te mesmo quando te não vejo
ouvir a tua voz que abre as fontes de todos os rios
mesmo esse que mal corria quando por ele passámos
subindo a margem em que descobri o sentido de irmos contra o tempo
para ganhar o tempo que o tempo nos rouba.
Como gosto, meu amor, de chegar antes de ti
para te ver chegar: com a surpresa dos teus cabelos
e o teu rosto de água fresca que eu bebo, com esta sede que não passa.
Tu: a primavera luminosa da minha expectativa
a mais certa certeza de que gosto de ti, como gostas de mim
até ao fim do mundo que me deste.
Nuno Júdice, in 'Pedro, Lembrando Inês'
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